Aspectos da crise
Arquivo S - Gripe Espanhola Jornal carioca diário fundado em 2 de agosto de 1875 por José Ferreira de Sousa Araújo. Introduziu uma série de inovações na imprensa brasileira, como o emprego do clichê, das caricaturas e da técnica de entrevistas, chegando a ser um dos principais jornais da capital federal durante a República Velha. GAZETA DE NOTÍCIAS (RJ) – 1918 - edição 270 – pág. 1 - edição 286 – pág. 1 - edição 287 – pág. 1 - edição 291 – pág. 1 - edição 293 – pág. 1 - edição 294 – pág. 1 - edição 301 – pág. 1 - edição 309 – pág. 1

Aspectos da crise

por Sérgio Sérvulo da Cunha,  do Fórum da Cidadania de Santos (Santos-SP)

Diante da pandemia, nota-se por parte de alguns governantes um certo fatalismo, no sentido de que a melhor atitude é agachar-se, e esperar que o vírus faça o seu esperado curso, de modo que os sobreviventes se tornem imunes.  Isso levanta uma interrogação: se é possível, com planejamento e um adequado sistema de saúde, evitar que muitas pessoas morram, a falta de providências adequadas expõe esses governantes a responsabilização penal, no mínimo por crime de negligência culposa? E, caso se instaurasse algum processo com esse objetivo, poderiam eles arguir em sua defesa, como científica, a tese de que as raças se aperfeiçoam com a eliminação dos mais fracos (cf. Mein Kampf)?

Esse pensamento me vem à mente, ao ler a entrevista de um estudioso das epidemias, para o qual, nas estratégias que têm se apresentado para o seu combate, nota-se um viés de classe.

Cláudio Bertolli Filho é um historiador, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp), autor de livros como  autor de “A Gripe Espanhola em São Paulo”, 1918: Epidemia e Sociedade”, “História da Saúde Pública no Brasil”, “Revolta da Vacina”. Trazendo à lembrança o livro “A peste”, de Camus, diz ele que “a peste revela uma sociedade doente, enferma,……cujas dificuldades sociais, mais do que qualquer outra coisa, obrigam uma parte da população a se expor, sair às ruas,…..enquanto outra — isto é, os grupos sociais privilegiados — acabam tendo possibilidade de fazer esse isolamento sanitário.”

Segundo Bertolli, a presente crise evidencia a falência do mito de que a pandemia viral é um fenômeno democrático, isto é, que atinge indistintamente os diferentes grupos sociais. Há uma consciência, não plena mas já bem clara, de que as pessoas vivem, adoecem, tratam da saúde e falecem em consonância com a classe social na qual estão inseridas. Em 1918 [na época da epidemia da gripe espanhola] usou-se muito o argumento de que os ricos também morreram, morreu até o presidente eleito Rodrigues Alves [em janeiro de 1919]. “Mas em minha pesquisa, identifiquei os endereços de residência dos mortos em São Paulo, e a grande maioria, embora tenham morrido na Santa Casa, área central, residia em bairros operários”.

Essas palavras vêm no contexto de uma longa entrevista publicada pela News Letter TAB, cujo inteiro teor pode ser lido no link https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/20/todas-as-epidemias-tem-uma-dimensao-politica-diz-antropologo.htm

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