Além do círculo de ruptura do talude

Fotos: Cláudio Nascimento

Por Lara Fernanda Modolo Ducci e Milton César Munhoz Fillho

Nós, que nascemos no interior do estado de São Paulo, aprendemos, desde muito cedo, a influência dos efeitos que a água tem sobre o solo e que uma chuva branda e constante, sua distribuição e quantidade, prepara o solo para o plantio de culturas. Com a condição de umidade adequada, água e ar em seus poros, cria-se no mesmo a capacidade de campo, ideal para permitir que as sementes germinem. Períodos de chuvas são essenciais para o bom desenvolvimento das mudas no campo.

Pois bem, foi esse tipo de precipitação que ocorreu quatro dias antes da tragédia que se abateu sobre a cidade do Guarujá – SP. Em 72 horas, o acumulado de chuvas atingiu 405 mm, um volume excessivamente alto, tendo em vista o histórico de chuvas no Estado, de acordo com a Defesa Civil do Estado de São Paulo. A intensidade da chuva aumentou oito horas antes do deslizamento do morro da Barreira do João Guarda, na madrugada do dia 03/03/2020. Ainda estávamos na escola (EE Ignácio Miguel Estefno – Praia da Enseada) e, ao término do período noturno, começamos a dimensionar a extensão do evento por conta do volume de precipitação. Muitos alunos e professores não conseguiram chegar em suas residências, as ruas estavam alagadas. Aqueles que conseguiram depararam-se com um cenário jamais visto: água por todos os lados invadindo as casas.

Durante esse período de chuvas que antecedeu o deslizamento, fiquei preocupada com o escorregamento das rochas das encostas em nossas rodovias. Lembrei-me das aulas de mecânica dos solos, entre outras. Do equilíbrio entre os campos de forças que a massa de solo é submetida, de que o mecanismo de atuação de cada força se faz necessário para estabilidade do talude. Da análise das forças devido ao escoamento da água, do peso dos materiais, a resistência ao cisalhamento e a diminuição do coeficiente de atrito entre as partículas do solo e, como são imprescindíveis para evitar sua desestabilização, evitando quedas, tombamentos, escorregamentos e rupturas, expansões laterais e escoamentos.

Recusei pensamentos de deslizamentos em áreas susceptíveis, onde existem habitações construídas em encostas instáveis nos morros de nossas cidades, pois inúmeras residências estão em áreas de risco. Em vão. No alvorecer do dia, recebemos um volume imenso de informações a respeito do deslizamento e sobre todas as atividades que começaram a ser desenvolvidas. A população se organizou no entorno do local, equipes da Defesa Civil, das Administrações Públicas Municipal e Estadual, do Corpo de Bombeiros, cujas informações de procedimentos e protocolos aprimoraram o entrosamento entre as instituições e voluntários, fortalecendo ações conjuntas em defesa da população.

As ações de cooperações técnicas em função de danos causados em redes de abastecimento de água, de esgoto, de energia, atividades de emergência devido à presença de terra, lama, entulhos, pedras, árvores e corpos humanos, se estenderam por vários dias. Bem como as ações sociais, voluntárias e solidárias, para atender a população de desabrigados. Pessoas perderam a vida, moradia, familiares, amigos, documentos, referências. A tragédia ocorrida ecoa por todo o sistema familiar. Ao unir nossas forças, conseguimos ultrapassar nossos limites com o apoio de outros órgãos; dando pleno cumprimento à inserção da escola, no que tange a relação escola e comunidade.

A unidade escolar ultrapassou seus muros limítrofes e alcançou espaços urbanos para a compreensão da realidade, da humanidade e de outras legitimidades. Todos os servidores públicos, sem exceção, exerceram com zelo e dedicação o acolhimento aos alunos e familiares que encontraram na escola a referência perdida, o espaço de diálogo e de cuidado. Nós, professores, oferecemos o apoio necessário, acolhemos a dor e a tristeza, ouvimos os relatos, orientamos pais e filhos, doamos para os que apresentavam extrema necessidade, auxiliamos nas diversas dificuldades e fragilidades, disponibilizamos água, documentos e um ombro amigo. Enfim, oferecemos nosso suco de laranja e, silenciosamente, choramos nossos falecidos.

Émile Durkheim, filósofo francês do século XIX, preceituou que a escola é reflexo preciso e imediato da sociedade. Nessa relação espectral, hoje temos, portanto, uma escola dilacerada. As feridas sulcadas no corpo e na alma de crianças e jovens do Guarujá invadiram a sala de aula e deixaram rastros de dor e desilusão. A escola pública, na gênese e no fundamento, humanista, não pode se filiar à indiferença e, por consequência, a protocolos que antes mais repelem que estimulam a sua índole acolhedora. O currículo, nesse momento, deve servir às necessidades mais prementes de alunos que, perdidos em meios aos dilemas da vida e da morte, precisam dentro da escola reencontrar-se consigo mesmos e, assim, ressignificar sua existência. Ser menos sisuda e mais sensível: essa é a equação que deve modelar a escola brasileira em tempos de tantas perdas e incertezas. Há que se acolher, com humanidade e altruísmo, alunos castigados não por um fenômeno natural, mas por um modelo de ocupação urbana perverso e elitista, há que se acolher, com delicada pessoalidade, alunos que, se antes já estavam fadados à própria sorte, agora veem-se relegados ao arrepio de casualidades e de favores remediadores e arrastados dos poderes públicos. Hoje, crianças desenham tristezas; jovens exalam desencantos e mágoas; crianças expõem suas feridas e, às vezes, brincam com elas, pois, para muitas, foram as únicas coisas que sobraram; jovens destilam suas frustrações e pedem, na cólera que os toma, que sejam socorridos não por enquanto, mas para sempre.

A educação contemporânea, tributária do iluminismo europeu, tem uma meta: criar condições para que estudantes se fortaleçam e se constituam como indivíduos políticos, autônomos, desoprimidos, e, então, independentes. É por esta luz que a escola deve se guiar, adaptando currículo, transversalizando temas, particularizando finalidade e tratamentos, sendo menos ciosa de ritos e mais ocupada de sensações e sentimentos – sem os quais nenhum componente, nenhuma matriz, nenhuma linha de teoria, pode ser apreendida. Tais reflexões retoma ao centro de uma análise plural – discussões e desdobramentos sobre os desafios da Educação Pública.

Nesse estado de coisas, faz-se necessário refletir sobre a função social da propriedade urbana, os elementos que constituem o direito a uma habitação digna e os desafios da construção de uma política habitacional. Sendo que a concepção e implementação de programas habitacionais que atendam aos interesses e necessidades da população, viabilizando o acesso das classes populares a moradias dignas e seguras, deveria ser prioridade do Governo Federal.

É preciso ter coragem e ousadia de ir além.

Lara Fernanda Modolo Ducci. Engenheira Civil. Especialista em Saúde Pública, em Resíduos Sólidos Domiciliares e Impacto Ambiental. Conselheira da CNTU. Professora da SEESP.

Milton César Munhoz Filho. Especialista em Educação a Distância. Especialista em Educação Especial Inclusiva. Mestrando em Educação. Professor da SEESP.

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