Ser mulher e periférica no Brasil da pandemia

Por Aldenir Dida Dias, Thais Helena e Cidinha Santos 

O fato é: o novo coronavírusnão é neutro ao gênero, cor e endereço. A princípio, parecia promover uma mudança no vetor das vulnerabilidades, visto que atingia eminentemente pessoas de classe social mais elevada, advindas de países cujo processo de contaminação se iniciara anteriormente. Bastou o primeiro caso diagnosticado no Rio de Janeiro vir a público, para percebermos que por aqui a coisa seria diferente, em poucos dias a patroa diagnosticada após chegar da Itália havia contaminado sua empregada doméstica e, esta, transmitido para sua mãe. Coube indenizar a patroa pela contaminação e morte da mulher negra que trabalhava como sua empregada doméstica? É evidente que não. Um vírus afeta igualmente todos os segmentos da sociedade brasileira? Evidentemente não.

Impotente diante dos fatos há a necessidade de escrever: o texto parece que pode, pode o que? Se a crise gerada pela pandemia leva empresas a buscarem alternativas de sobrevivência econômica, o que dizer às mulheres que: chefiam 40% dos lares brasileiros; que suportam taxa de desocupação formal superior à dos homens; e segundo dados do IBGE (2018), representam 40% dos trabalhadores informais, 2,7% a mais que os homens? Como é que se explica quarentena domiciliar a mulheres negras, chefes de família e trabalhadoras da informalidade, para quem o lar representa o lugar mais inseguro às suas vidas, enquanto vemos os casos de feminicídios aumentarem como um campo de guerra para as mulheres? O avanço do conservadorismo nos faz lembrar ainda que o Brasil (e não somente) continua sendo um lugar perigoso para as mulheres, aonde uma mulher é assassinada a cada instante.O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres e o que mais mata mulheres trans. Os casos de violência sexual têm nos homens da família ou conhecido pela família, seus maiores agressores, cerca de 90% dos casos. A maioria destes casos de estupro é de crianças e adolescentes. Nessa nação fruto de estupros coletivos de africanas e suas descendentes, bem como, de mulheres indígenas pelos europeus, invasores (colonizadores), os assassinatos de mulheres negras aumentaram 54%, entre os anos de 2002-2013, enquanto o de mulheres brancas reduziu em 9.3%, consequências nítidas do racismo estrutural em nosso País, que cresce juntamente ao patriarcado por meio do machismo, estruturam e ampliam (as desigualdades sociais) a acumulação capitalista.

A linha de frente nos hospitais em combate ao novo coronavírus sendo as mulheres aquelas que se encontram no front das profissões relacionadas ao cuidado e à saúde, sem as quais os serviços mais essenciais hoje não se sustentam: enfermeiras, técnicas e auxiliares de enfermagem, junto com médicos/as representam indiscutível grupo de risco, mas, indubitavelmente, são as duas primeiras categorias, diante das condições em que as unidades hospitalares funcionam no Brasil, as mais vulnerabilizadas. Afora as ocupações nas áreas médicas e de enfermagem selecionadas, as mulheres são maioria absoluta entre as empregadas domésticas e cuidadoras, – aproximadamente 97% da categoria são compostas por mulheres, em especial negras.

Sim, a pandemia causada pelo novo coronavírus pode acentuar os efeitos da desigualdade de gênero e piorar a vida das mulheres em especial as periféricas. Mas o aumento da miséria na periferia não é uma consequência apenas do vírus, os desdobramentos do isolamento social não são fatalidades da vida social. Nada mais é do que a persistência da desigualdade no campo do direito e dos deveres do Estado. Dói ver milhares de pessoas morrendo todos os dias, covas sendo abertas em grande escala, o Sistema Único de Saúde (SUS) e os governantes de todos os escalões entrando em colapso. A dor e a vergonha de constatar a persistência da desigualdade na ordem social brasileira das raízes de nossa escandalosa desigualdade social racial.

No Brasil, com a crise econômica internacional iniciada em 2008, as mulheres têm sido as principais vítimas, visto que estão entre a maioria da classe trabalhadora e tem sua vida interseccionada pela condição de classe, sexo/gênero além da sua condição racial, a experiência da maioria da classe trabalhadora, independente do emprego formal, informal ou terceirizado, a tripla jornada sempre fora posto para a maioria das mulheres negras.

Além da retirada dos poucos direitos conquistados pela classe trabalhadora com a aprovação de reformas e projetos como as Proposta de Emenda à Constituição (PEC’s) do teto dos gastos públicos que congelou os já parcos investimentos nas áreas onde as mulheres atuam (saúde, educação e assistência social), seja como usuárias ou como trabalhadoras. O grande desmonte do governo federal atacou o Ministério das Cidades acabando com o que restou da política de habitação afetando, mais uma vez, as mulheres chefes de família.

O Brasil é cativante e áspero, acolhedor e cruel, e aqui cabe a irresponsabilidade generalizada do poder público que sintetiza a maneira como as esferas públicas e privadas se relacionam na dinâmica dos conflitos sociais num País que tem duas calamidades públicas: o vírus e o Senhor Jair Messias Bolsonaro que além de fascista é o presidente dessa dita “republica federativa democrática” e demite ministros como quem troca de roupa, principalmente aqueles que tomam medidas que vai na contramão do pensamento produtivista e das políticas neoliberais de diminuição do Estado. 

Nesse Brasil que dói e traumatiza, existem cerca de 35 milhões de lares chefiados por mulheres, ainda segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como podem se proteger mantendo distanciamento social se o racismo patriarcal e o individualismo capitalista as impele a enfrentarem ônibus lotados para irem trabalhar? E as milhares de trabalhadoras e trabalhadores informais que precisam vender ou prestar serviços para ter o que receber, no mês, na semana ou mesmo no próprio dia? Como sobreviver ao desemprego massivo e à paralisação das atividades econômicas, se desde antes as mulheres negras já ocupavam os postos mais mal remunerados do mercado de trabalho?

Nesse momento, estamos vivendo uma guerra contra um inimigo desconhecido, o coronavírus, nos perguntarmos o porquê da sua permanência, principalmente em tempos como este em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o discurso das principais organizações internacionais, indicam que a única forma de nos proteger da covid-19 é ficando todos e todas em casa evitando assim que o vírus se alastre a fim de impedir o caos nos serviços de saúde, e mesmo com tantas medidas de proteção e higiene vimos que no dia 27 de março de 2020, 104 pessoas morreram em Manaus, nenhum deles foi enterrado em cemitérios luxuosos ou morreram em hospitais privados. Quem são essas 104 pessoas, quem são eles e quem somos nós? Todos eram igualmente pobres e trabalhadores. Somos mulheres brancas, negras, de pele mais clara e mais escura, somos mulheres trabalhadoras urbanas e rurais, indígenas, viventes em regiões tradicionais como quilombolas, ribeirinhas, sertanejas, somos lésbicas, bissexuais, transexuais e heterossexuais, somos crianças, jovens, “adultas” e idosas de variadas partes e, locais, do país, somos todas com e sem algum tipo de deficiência, afinal somos uma multiplicidade que às vezes somadas quadruplicam nossas boas ou más chances e oportunidades de viver tendo acesso ao mínimo de condições humanas, no Brasil.

“O pessoal é político” – expressão do pensamento feminista cunhada por Carol Hanischi (jornalista estadunidense) uma emblemática frase que marcou a segunda onda do feminismo e permanece como importante bandeira. A ideia de que os problemas pessoais são problemas políticos, nos retorna a questão no início do texto: O texto parece que pode, pode o que? Pode denunciar que mais uma vez mulheres, negras, negros e pobres serão alvo da seletividade de uma tragédia sem precedentes na nossa história. A nossa sociedade de capitalismo colonial bem soube se utilizar dos pressupostos do patriarcado indicando por meio de uma educação formal e cultural grego-judaica cristã, o lugar esperado e determinado para as mulheres, principalmente para as mulheres trabalhadoras, nesta sociedade. Para umas, as da casa grande, a mulher bibelô, frágil, totalmente dependente do pai ou do marido, enquanto as de fora, as da senzala, as destinadas ao trabalho, dependentes de tudo, principalmente das correntes. Estas não foram criadas como frágeis, ao contrário, eram consideradas fortes, que aguentavam toda a exploração e agressão no corpo e na alma, a ponto de serem as últimas da fila de atendimento nos tratamentos e procedimentos médicos. No Brasil, as mulheres  que têm algumas das doenças “clássicas” como a diabetes, a hipertensão, o colesterol elevado e, por isso, têm cerca de cinco vezes a mais de chance de morte. Visto que direitos como a moradia, o acesso à educação de qualidade, ao transporte, à água potável, ao saneamento básico, à saúde de qualidade, às novas tecnologias digitais, tão fundamentais neste momento, já foram transformados em mercadoria, acaba sendo um privilégio ficar em isolamento social.

Contudo, se é verdade que a pandemia nos leva a refletir sobre a fragilidade da nossa existência, há um composto estruturante público e privado de gênero, raça e classe que precisa ser considerado tanto na destinação dos apoios estatais emergenciais quanto na ressignificação das nossas relações familiares, comunitárias e de trabalho. É preciso considerar os eventos colonizadores desde 1500 até os dias presentes para entendermos o estado de emergência pública. Fomos nós, mulheres pretas e pobres que vivemos entre o conflito do trabalho remunerado e não remunerado desde o século XIX, em especial das mulheres negras e chefas de família monoparentais. Portanto, neste momento, não temos como pensar em ações de prevenção e contenção do coronavírus sem lembrar que em nossa sociedade uns e umas têm mais direitos à uma vida digna humana do que outros e outres.

Aldenir Dida Dias, profa. dra ciências sociais

Thais Helena, estudante Serviço Social da UNIFESP

Cidinha Santos, jornalista

Ativistas no Coletivo Feminista Classista Maria vai com As outras! Baixada Santista

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